PROJETO ACADÊMICO · DESIGN DE EMBALAGEM · 2017
Chá Literário
Quando uma caixa de chá vira um livro.
Neste projeto de Design de Embalagem, uni duas coisas que sempre fizeram parte do meu universo: chá e livros. O resultado foi uma embalagem conceitual que transforma uma caixa de chá em um pequeno livro-objeto, unindo estrutura, narrativa, ilustração e experiência.
Design de Embalagem · Projeto Acadêmico · Design Gráfico

Chá, livros e uma prateleira cheia de caixas iguais
O Chá Literário nasceu durante um Projeto Integrado multidisciplinar da graduação em Design. O exercício envolvia não apenas a criação visual de uma embalagem, mas também pesquisa, análise de mercado, estrutura, planificação, faca, materiais, prototipagem e fundamentação em História do Design.
Escolhi trabalhar com chá porque já gostava muito do produto. Ao observar as embalagens disponíveis no ponto de venda, porém, percebi uma repetição muito grande: caixas retangulares, dimensões semelhantes e produtos organizados lado a lado, diferenciados principalmente por cor, marca e sabor.
Ali surgiu a oportunidade de criar algo que pudesse continuar funcionando na prateleira, mas que fosse reconhecido imediatamente como um objeto diferente.

De quatro palavras nasceu um conceito
LEITURALIVROTUMBLRNOSTALGIA
Durante o brainstorming do projeto, essas quatro palavras se tornaram o ponto de partida para a identidade da embalagem.
Eu queria criar algo encantador e reconhecível, que despertasse memória afetiva e fizesse referência a um repertório compartilhado. A solução começou a tomar forma quando imaginei uma caixa de chá com aparência de um antigo livro de contos de fadas: capa texturizada, páginas amareladas e uma narrativa conhecida escondida dentro do objeto.
Foi assim que nasceu o Chá Literário.

Mas havia público para essa ideia?
Para entender melhor a relação entre chá, leitura e percepção da proposta, apliquei um questionário com 159 participantes.
Em vez de usar a pesquisa apenas para justificar uma ideia já pronta, os resultados ajudaram a entender hábitos reais de consumo e a avaliar como o conceito poderia ser recebido.
- 159
- participantes
- 71,1%
- disseram gostar de chá
- 90,6%
- apontaram o sabor como principal critério de escolha
- 32,7%
- deram nota 10 para a intenção de compra do Chá Literário




Um resultado particularmente interessante foi perceber que a conexão entre chá e leitura não era um hábito universal. Apenas parte dos participantes afirmava consumir chá enquanto lia. Isso tornou a proposta ainda mais interessante: a embalagem não precisava apenas representar um comportamento existente — ela poderia sugerir um novo ritual.
Um conto de fadas na prateleira
O projeto também precisava dialogar com um movimento estudado em História do Design. Escolhi o Art Nouveau pela presença de formas orgânicas, ornamentação, flores, linhas sinuosas e figuras femininas — elementos que conversavam naturalmente com a atmosfera dos antigos livros de contos de fadas.
Para a narrativa, escolhi Alice no País das Maravilhas. A ligação com o chá aparecia de maneira quase inevitável por meio da famosa Hora do Chá com o Chapeleiro e a Lebre.
A identidade começou então a reunir três universos: embalagem, literatura e chá.


Desenhando um livro que precisava continuar sendo uma embalagem
O desafio não terminava na superfície gráfica. A forma precisava comunicar “livro” e, ao mesmo tempo, continuar funcionando como embalagem.
O protótipo foi projetado para acomodar até dez envelopes com sachês de chá. A estrutura precisava permitir armazenamento, abertura, fechamento e exposição, mantendo dimensões compatíveis com a lógica das embalagens encontradas nas gôndolas.
Antes da versão final, testei diferentes formas, encaixes e sistemas de montagem.




Da ideia à planificação
Com a volumetria definida, a estrutura precisou ser traduzida para uma faca técnica.
A planificação organiza todas as faces da embalagem, abas, áreas de fechamento e regiões destinadas à aplicação gráfica. Essa etapa foi importante para transformar o conceito em um objeto reproduzível e montar corretamente a relação entre capa, lombada, verso e laterais.


Quando a arte saiu da tela
Depois de definir a estrutura, comecei a testar a identidade diretamente na faca.
Este foi um dos primeiros testes impressos com a estampa aplicada. Ver a embalagem montada revelou questões que eram muito menos perceptíveis no Illustrator: proporções, continuidade entre as faces, posicionamento do grafismo e principalmente a relação entre a capa e as laterais que simulavam as páginas de um livro.
Esses testes ajudaram a refinar a arte antes da produção do protótipo final.

Da faca à arte-final
Com os testes estruturais concluídos, a identidade foi aplicada à planificação completa.
A frente passou a funcionar como a capa de um livro. A lombada recebeu o nome Chá Literário, enquanto as laterais ganharam textura de páginas amareladas. No verso foram organizadas as informações necessárias para um produto alimentício, incluindo tabela nutricional, validade, código de barras e símbolos técnicos.
A proposta visual precisava preservar a fantasia sem abandonar a função informacional da embalagem.


Projetar também é negociar com limites
O projeto também me colocou diante de decisões práticas.
Inicialmente, a estrutura foi pensada em papel-cartão fosco branco de 240 g/m², enquanto os envelopes internos seriam feitos em sulfite de 75 g/m².
Na apresentação final, utilizei papel couché de 250 g/m² para obter cores mais vivas e preservar melhor os detalhes da arte. A ideia de utilizar laminação existia, mas estava além do orçamento disponível para o projeto acadêmico.
Essa limitação acabou fazendo parte do aprendizado: projetar também significa adaptar intenção, acabamento e produção aos recursos disponíveis.
O livro se abre
A referência ao livro não termina na capa.
Ao abrir a embalagem, o interior revela uma pequena narrativa em formato sanfonado inspirada em Alice no País das Maravilhas. Texto e ilustração transformam o ato de abrir a caixa em parte da experiência.
A embalagem deixa, por alguns instantes, de ser apenas um recipiente para sachês e assume literalmente o papel de um pequeno livro.

LIVRO POR FORA.HISTÓRIA POR DENTRO.CHÁ NO CENTRO DA EXPERIÊNCIA.
O resultado
O resultado foi uma embalagem conceitual capaz de reunir estrutura, identidade visual e narrativa em um único objeto.
Fechada, ela se apresenta como um pequeno livro de contos. Na prateleira, mantém proporções que permitem sua organização junto às embalagens tradicionais. Quando aberta, revela uma camada inesperada da experiência e reforça o universo literário que originou o conceito.
Mais do que acondicionar o chá, a embalagem procura transformar o produto em um pequeno ritual.



O que ficou comigo
Esse projeto foi desenvolvido em 2017, ainda nos primeiros anos da minha formação em Design. Hoje eu faria algumas escolhas de maneira diferente — e justamente por isso gosto tanto de revisitá-lo.
O Chá Literário já reunia várias coisas que continuariam aparecendo no meu trabalho anos depois: pesquisa, narrativa, ilustração, experimentação, construção manual e o interesse por transformar objetos comuns em experiências.
Também foi um dos projetos em que consegui levar algo muito pessoal para dentro do processo de design.
Eu gostava de chá.
Eu gostava de livros.
E descobri que uma embalagem poderia ser o lugar onde essas duas coisas se encontrassem.
“Mais do que embalar chá, eu quis embalar a sensação de aconchego que existe entre uma leitura tranquila e uma xícara quente.”