DESIGN SUSTENTÁVEL · PROJETO ACADÊMICO
Do guarda-chuva à bolsa
Como um guarda-chuva descartado se transformou em matéria-prima para um exercício de upcycling design.
Quando fui apresentada ao conceito de upcycling design durante a faculdade de Design, recebi o desafio de desenvolver um projeto a partir desse princípio.
Na época, minha primeira tradução mental foi mais ou menos: “Então é reciclagem.” 😅
Mas existe uma diferença importante.
Enquanto a reciclagem normalmente envolve transformar novamente a matéria-prima para que ela possa voltar ao ciclo produtivo, o upcycling procura aproveitar aquilo que já existe, preservando o máximo possível do material e atribuindo a ele uma nova função — muitas vezes com um valor maior do que aquele que teria como resíduo.
A proposta parecia simples. A parte interessante era descobrir o que reaproveitar e por quê.
E foi aí que comecei a olhar para o meu próprio cotidiano.
O problema estava na rua
Eu vivo em São Paulo.
Uma cidade que não ganhou a fama de “terra da garoa” por acaso.
Quando chove forte, existe uma cena bastante comum: guarda-chuvas quebrados aparecendo em calçadas, lixeiras e esquinas.
A estrutura metálica entorta. As hastes quebram. O mecanismo deixa de funcionar. E o guarda-chuva inteiro acaba sendo descartado.
Mas existe algo curioso nisso.
Muitas vezes, o tecido ainda está em boas condições.
Ele foi criado justamente para lidar com água, vento, dobra e uso constante. Mesmo quando a estrutura do guarda-chuva deixa de funcionar, aquela superfície continua sendo um material leve, flexível e resistente.
Foi aí que encontrei a matéria-prima do projeto.
Em vez de começar pensando “O que eu quero fazer?”, comecei perguntando: “O que este material ainda pode fazer?”
O guarda-chuva estava quebrado.
O tecido não.
Reaproveitar antes de descartar
O ponto central do projeto não era simplesmente reutilizar um objeto por reutilizar.
Eu queria encontrar uma nova função que aproveitasse as características que aquele material já possuía.
O tecido do guarda-chuva era:
- leve;
- dobrável;
- compacto;
- feito para suportar contato com água;
- construído em vários segmentos de tecido.
Em vez de tentar esconder a origem do material, comecei a pensar em como essas características poderiam orientar o próprio projeto.
A solução precisava ser útil. Mas também precisava ser prática.
E, se possível, continuar aproveitando aquilo que o guarda-chuva já sabia fazer muito bem: dobrar, abrir, carregar e ocupar pouco espaço.
Foi assim que encontrei o Furoshiki
Durante a pesquisa, cheguei ao Furoshiki, uma prática japonesa de embrulhar e transportar objetos utilizando tecido.
A ideia imediatamente fez sentido para o projeto.
Um pedaço de tecido pode assumir diferentes funções dependendo da maneira como é dobrado, amarrado e organizado.
Pode envolver. Pode proteger. Pode transportar. Pode se adaptar ao objeto. E depois pode ser utilizado novamente.
Existe algo muito elegante nisso. Não apenas esteticamente, mas na própria lógica da solução.
Em vez de adicionar cada vez mais peças e mecanismos, o tecido participa da estrutura.
O Furoshiki não seria simplesmente copiado. Ele funcionaria como referência conceitual para pensar como uma superfície flexível poderia se transformar em um objeto de transporte.
Foi então que decidi: eu faria uma bolsa.
Referências conceituais reunidas durante a pesquisa sobre Furoshiki.
O tecido deixaria de proteger alguém da chuva para começar a carregar aquilo que essa pessoa precisasse levar.
Desmontando o guarda-chuva
Antes de transformar o objeto, precisei entendê-lo.
Observei um modelo comum de guarda-chuva e comecei a desmontá-lo.
A cobertura não é simplesmente um pedaço de tecido circular. Ela é formada por segmentos que acompanham a geometria da armação e são presos em diferentes pontos da estrutura.
Registrei a armação, as hastes, o eixo central, os pequenos encaixes, as extremidades metálicas, os pontos de fixação do tecido e a maneira como a cobertura se organiza quando o guarda-chuva é fechado.
O processo de desmontagem também ajudou a compreender quais partes realmente pertenciam ao mecanismo e quais poderiam continuar fazendo parte do novo objeto.
Da geometria do guarda-chuva à geometria da bolsa
Também estudei a forma do guarda-chuva no papel.
A estrutura radial cria uma superfície dividida em segmentos.
Meu desafio era entender como essa mesma superfície poderia mudar de comportamento quando determinados pontos fossem aproximados, dobrados ou conectados.
Os desenhos registram esse raciocínio: primeiro, a geometria aberta; depois, os pontos de dobra; a aproximação das extremidades; a formação das laterais; e, por fim, a possibilidade de transformar a própria cobertura em uma bolsa.
Não queria simplesmente recortar o tecido e começar novamente do zero. Parte do exercício estava justamente em observar a construção existente e utilizá-la como ponto de partida.
Dobrar, prender, testar
A partir dos estudos, comecei a experimentar diretamente com o material.
Alguns dos pontos de fixação originais do guarda-chuva passaram a orientar as novas dobras.
A cobertura começou a se fechar sobre si mesma. As extremidades foram aproximadas. O volume apareceu.
E aquilo que antes precisava permanecer completamente aberto para funcionar como guarda-chuva começou a assumir outra lógica.
Agora, precisava formar um espaço capaz de carregar objetos.
Esse processo foi essencialmente experimental.
Dobrar. Observar. Abrir novamente. Mudar um ponto. Segurar. Testar.
Até que a forma começasse a funcionar.
Uma nova função para o mesmo material
O resultado foi uma bolsa construída a partir da própria cobertura do guarda-chuva.
O tecido que antes se abria radialmente acima da cabeça passa a se reorganizar em torno de um volume.
As áreas de tecido formam o corpo da bolsa. As dobras modificam sua silhueta. E a parte superior se transforma em uma alça que permite carregá-la.
O que mais me interessava não era simplesmente chegar a uma bolsa. Era perceber que o novo objeto ainda carregava características do anterior.
Ele continuava:
- leve;
- flexível;
- dobrável;
- compacto;
- feito para o uso cotidiano.
A função mudou. Mas várias qualidades do objeto original permaneceram.
A mesma lógica, outra aparência
Os registros do projeto também mostram a experimentação com outro tecido de guarda-chuva, desta vez rosa e estampado.
É interessante perceber como a origem do material interfere diretamente no resultado.
A estrutura pode seguir a mesma lógica, mas cor, estampa e distribuição dos segmentos transformam completamente a aparência do objeto.
Isso reforçou outra característica interessante do upcycling: cada matéria-prima traz consigo uma história visual que não precisa ser apagada.
O projeto novo não precisa fingir que nasceu de uma folha em branco.
Projetar também é aprender a olhar
Quando penso nesse exercício hoje, a parte mais interessante não é apenas a bolsa que surgiu no final.
É o percurso.
O projeto começou com uma observação bastante cotidiana: guarda-chuvas quebrados são descartados o tempo inteiro.
A partir dela, precisei olhar novamente para um objeto que eu já conhecia.
Separar estrutura de material. Entender sua construção. Investigar referências. Testar possibilidades. E descobrir uma nova função a partir das características que já estavam ali.
Esse projeto me ensinou uma ideia que continua fazendo sentido para mim:
Design nem sempre precisa começar criando algo novo.
Às vezes, ele começa quando olhamos para aquilo que já existe e perguntamos: “Isso realmente chegou ao fim da sua vida útil?”
Talvez o objeto tenha chegado ao fim.
O material, não necessariamente.











